Caminho Novo e Fazenda da Mandioca — uma colônia antes da cidade
Há capítulos que começam numa placa. Este começa numa estrada.
Antes de Petrópolis ter ruas, quarteirões e um palácio, o caminho que subia a Serra da Estrela já transportava tropas, viajantes, notícias e projetos. Na raiz da serra, perto do Porto da Estrela, uma fazenda tornou-se parada conhecida de quem seguia em direção ao interior. Chamava-se Mandioca.
Convém acertar o mapa antes de melhorar a frase: o lugar fica no atual município de Magé. Não era uma fazenda dentro da cidade de Petrópolis — que ainda nem existia —, embora estivesse ligada ao antigo Córrego Seco pelo Caminho Novo e pela circulação de pessoas que atravessavam a serra.[25]
Georg Heinrich von Langsdorff comprou a propriedade em 1816. Médico, naturalista e cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro, ele fez da casa mais do que uma pousada confortável. Ali reuniu biblioteca científica, herbário, jardim botânico e coleções zoológicas e minerais. Thomas Ender pintou a fazenda; outros artistas e naturalistas passaram por ela. Um estudo recente propõe entendê-la como “espaço de circulação” do conhecimento: um lugar onde informações, desenhos, espécimes e experiências mudavam de mãos antes de seguirem viagem.[26]
Não era um instituto de pesquisa com recepção e crachá. Era uma fazenda no caminho das mulas. Talvez por isso seja tão interessante: os livros conviviam com o moinho, as plantas classificadas com as plantações, e a conversa científica com a poeira da estrada.
Em 1822, Langsdorff tentou acrescentar outro projeto à propriedade. Trouxe da Europa um grupo de imigrantes, muitos deles artesãos. O estudo de Antônio Eugênio Taulois registra 94 desembarcados do navio Doris e 85 encaminhados para a Mandioca, diferença atribuída a desligamentos ocorridos logo após a chegada. A precisão dos números ainda depende do confronto com listas e registros originais; o que aparece com clareza é uma experiência organizada mais de vinte anos antes da chegada, em 1845, do grande grupo de colonos germânicos associado à fundação de Petrópolis.[27]
As duas histórias se aproximam. Não devem ser confundidas.
Na Mandioca, o plano era privado e agrícola, conduzido por Langsdorff numa propriedade hoje mageense. Em Petrópolis, a colonização de 1845 integrou o projeto da povoação e as obras do palácio e da infraestrutura urbana. O caminho ajuda a enxergar a continuidade regional. A cronologia impede transformar essa continuidade numa única colônia.[28]
O projeto de 1822 logo entrou em crise. Fontes posteriores descrevem desencontro entre o que Langsdorff pretendia oferecer — trabalho remunerado e possibilidade futura de acesso à terra — e o que parte dos imigrantes esperava encontrar. Numa carta a José Bonifácio, conhecida aqui por transcrição e comentário, Langsdorff falou em revolta e pediu proteção. Temos, portanto, a voz do proprietário sobre o conflito. Ainda faltam os contratos e relatos dos trabalhadores para que o outro lado não apareça apenas como “indisciplina”.[27]
Há também um cuidado maior. A fazenda já empregava pessoas escravizadas. Logo, a contratação de europeus para trabalho remunerado não transformou automaticamente a Mandioca numa experiência fora da escravidão. Trabalho livre e trabalho escravizado coexistiram no mesmo empreendimento. A novidade do projeto não pode servir de cortina para quem continuava trabalhando sem liberdade.[29]
A colônia se dispersou. Alguns imigrantes deixaram a fazenda, outros seguiram para diferentes regiões, e o plano não durou. Em 1826, a propriedade foi desapropriada e incorporada ao conjunto que daria lugar à Fábrica de Pólvora da Estrela. A casa desapareceu como centro de Langsdorff; ficaram desenhos, gravuras, relatos e vestígios.[25]
No acervo do Museu Imperial há uma gravura sem data, de autor anônimo, identificada como vista da Fazenda da Mandioca. É uma imagem guardada em Petrópolis de um lugar hoje situado em Magé. O arquivo, às vezes, atravessa a divisa municipal com mais facilidade do que a memória.[30]
Talvez esta seja a ligação mais honesta com esta série sobre ruas. A Mandioca não precisa ser empurrada para dentro de Petrópolis. Ela estava antes, abaixo e no caminho. Antes de a cidade receber colonos germânicos, outra experiência de imigração já havia encontrado a serra — e tropeçado em dinheiro, contratos, expectativas e numa sociedade escravista.
A estrada trouxe pessoas. Nem sempre trouxe o mesmo futuro que lhes haviam prometido.
Fontes e caminhos da pesquisa
[25] Antônio Eugênio de Azevedo Taulois, “O Barão de Langsdorff e a sua tentativa de promover a imigração alemã na Fazenda da Mandioca”, trabalho datado de outubro de 2010 e incluído no site do IHP em 01/03/2011. Texto consultado, especialmente seções 3 e 4. José Rogério Beier, em artigo de 2024, localiza a fazenda no fundo da Baía de Guanabara, no atual município de Magé. A incorporação de 1826 é sustentada também pelo projeto A Casa Senhorial. O texto mais antigo de Alcindo Sodré no IHP menciona decisão de transferência da fábrica em 1829; decreto, escritura de desapropriação e processo patrimonial ainda não foram examinados diretamente.
[26] José Rogério Beier, “Casas, fazenda e fábrica: espaços de circulação e o conhecimento geográfico sobre o Brasil nas primeiras décadas do Oitocentos”, Anais do Museu Paulista, v. 32, 2024, DOI 10.11606/1982-02672024v32e30. Texto integral, seção “A Fazenda Mandioca do Barão de Langsdorff”. O artigo usa relatos de viagem e outros documentos para interpretar a fazenda como espaço de circulação; a expressão é uma categoria analítica moderna, não nome usado pelos moradores.
[27] Taulois, texto citado, seções 4.2–4.4. Consultados os números de desembarque e encaminhamento, o resumo da correspondência com José Bonifácio e a narrativa do conflito. Os documentos do Arquivo Nacional, as cartas e os contratos originais citados pelo autor não foram consultados nesta pesquisa. Janaína Botelho, “Langsdorff e a Fazenda da Mandioca: bicentenário da imigração alemã no Brasil”, 27/06/2024, Serra News, foi usada como contraponto secundário sobre as expectativas de acesso à terra e a dispersão dos colonos; não substitui os contratos.
[28] Museu Imperial, Almanaque do Palácio Imperial de Petrópolis, 2ª ed., 2020, pp. 8–12 e cronologia, p. 49. PDF institucional. Consultados o projeto da povoação, os trabalhos de infraestrutura e o registro de 29/06/1845 para a chegada do primeiro grande grupo germânico. A comparação distingue os projetos; não afirma continuidade administrativa ou familiar entre Mandioca e Petrópolis.
[29] A coexistência de trabalhadores imigrantes e escravizados aparece em Taulois e no artigo de Botelho. O número de pessoas escravizadas indicado por Taulois não foi repetido no corpo porque inventário, matrícula ou lista nominal não foram examinados. “Substituição” aparece como intenção atribuída a Langsdorff, não como resultado social comprovado.
[30] Museu Imperial, DAMI, “Fazenda da Mandioca”, coleção Museu Histórico de Petrópolis, processo 83/1940, identificador 0391-MHP-MI-174. Registro do acervo. Consultados metadados e descrição: gravura, autor anônimo, sem data, 28,5 x 33,6 cm. A imagem não foi usada para reconstruir planta, dimensões ou rotina da fazenda.
Esta pesquisa continua. Tem documentos, fotografias ou uma correção sobre esta história? Escreva para lucianoms@live.com. As informações recebidas serão verificadas antes de entrar no texto.
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