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Retiro — a placa não conta a conversa inteira

há 3 horas
7 min de leitura

Um nome de rua precisa caber numa placa. Uma vida, felizmente, não tem essa obrigação.

No conjunto de logradouros do Retiro indicado pelo material reunido nesta pesquisa, aparecem Henrique Dias, Felipe Camarão, Vidal de Negreiros, Fernandes Vieira e Guararapes. Lidos separadamente, podem parecer apenas cinco respostas à pergunta “onde fica?”. Lidos em conjunto, convidam a outra: o que uma guerra do Nordeste está fazendo na memória de um bairro de Petrópolis?[1]

A pergunta tem duas pontas. Uma leva aos personagens; outra, a quem decidiu homenageá-los. Por enquanto, sabemos mais sobre a primeira. Ainda falta conferir os atos municipais que permitirão contar a segunda sem preencher o silêncio do arquivo com uma história muito bem-arrumada. Não é defeito da rua. É trabalho nosso.

Comecemos por Camarão. Não por uma espada, mas por uma carta.

A edição de Eduardo de Almeida Navarro apresenta uma mensagem de 19 de agosto de 1645, identificada como dirigida a Pedro Poti. Nela, Camarão procura atrair para o seu lado indígenas aliados dos holandeses. Invoca pertencimento, faz advertências e oferece perdão. A guerra atravessa o próprio grupo que o nome potiguara poderia, visto de longe, fazer parecer unido.[2]

É uma mudança importante de escala. De um lado está o nome público, disponível para a homenagem; de outro, um texto que precisa convencer alguém. O homem deixa de ser somente o destinatário da nossa admiração e passa a ser o remetente de um pedido político. A carta não cabe na placa. Mas pode mudar a maneira como lemos a placa.

Há uma pequena surpresa na própria palavra “nós”. Cândida Barros e Ruth Monserrat mostram que a carta alterna formas tupis que incluem ou excluem o interlocutor. Na leitura das pesquisadoras, essa alternância participa da persuasão. Elas também propõem entender a correspondência como oferta de “quartel”: garantia de tratamento a quem se rende, não o prédio que hoje costuma vir à cabeça.[3]

Uma palavra abre a porta; outra estabelece de que lado estamos. Essa é uma imagem do narrador, não uma frase de Camarão. Ainda assim, ajuda a perceber por que um documento tão pequeno exige uma leitura tão demorada.

E quem recebia as palavras? Também tinha algo a dizer. Segundo a reportagem do Jornal da USP, a resposta atribuída a Poti chega até nós por um resumo em holandês, com críticas à violência e à escravização praticadas pelos portugueses. Não estamos diante de uma conversa integral, preservada igualmente dos dois lados. O próprio caminho pelo qual lemos a discussão é desigual.[4]

Isso nos obriga a uma delicadeza que os nomes de rua nem sempre pedem: escutar sem fingir que ouvimos tudo. Não seria honesto pôr os dois homens numa cena, distribuir falas e decidir o que cada um sentiu. A documentação oferece argumentos. O restante não vira fato só porque daria um bom parágrafo.

Os outros nomes do Retiro voltam a se encontrar no estudo de Barros e Monserrat: em 1648, uma oferta holandesa recebeu respostas de Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros, de Henrique Dias e de Camarão. O estudo remete a uma cópia manuscrita da Biblioteca Nacional. Ainda precisamos examiná-la, mas já temos uma pista documental que reúne os quatro além das nossas placas.[3]

Voltemos, então, ao bairro. Esse encontro de nomes permite ler o Retiro como um convite à história — uma interpretação nossa, não uma intenção municipal já comprovada. Também não demonstra que os homenageados tenham vivido aqui. Uma cidade pode guardar a lembrança de alguém que nunca percorreu suas ruas.

Talvez essa seja uma boa maneira de começar o passeio: sem exigir que cada placa conte tudo, mas sem deixá-la encerrar o assunto. O endereço continua servindo para chegar a uma casa. A curiosidade serve para não passarmos sempre pelo mesmo nome sem nunca chegarmos à pessoa.

Quando Guararapes encontra Binot

Há outra entrada para o Retiro. Ela não começa numa batalha. Começa num vaso de orquídeas.

A página de turismo da Prefeitura situa o Orquidário Binot na Rua Fernandes Vieira, número 390. É uma coincidência daquelas que parecem ter sido arrumadas por um romancista cuidadoso demais: na rua que guarda o nome de um chefe da Insurreição Pernambucana permanece uma casa dedicada às plantas, ligada a uma família da história de Petrópolis.[5]

Fernandes Vieira na placa. Binot atrás do portão.

O Instituto Histórico de Petrópolis registra que Jean Baptiste Binot instalou primeiro uma chácara no Quarteirão Nassau e, mais tarde, outra no Retiro, associada ao atual orquidário. O guia do Museu Imperial acrescenta a peça mais conhecida dessa biografia: foi Binot quem planejou e executou os jardins do palácio na década de 1850, sob orientação de Pedro II.[6]

É tentador parar na imagem do paisagista. Ela é bonita, perfumada e cabe muito bem num cartão-postal. O arquivo, porém, abre o portão dos fundos.

Em 2008, Maria de Fátima Moraes Argon publicou no boletim do IHP a transcrição de um contrato de 29 de abril de 1854 entre João Batista Binot e a Superintendência da Imperial Fazenda. A autora identifica o original no Arquivo Grão-Pará, Códice 16, número 9. Nós lemos a transcrição; ainda não conferimos o manuscrito.[7]

O documento transforma o jardim em obra. Há terra a substituir, estrume a transportar, formigueiros a extinguir e canteiros a cavar. A relação principal soma 14.485 plantas: árvores frutíferas, roseiras, arbustos, vinhas, bulbos, dálias e outras herbáceas. Fora dessa conta aparecem ainda milhares de morangueiros e violetas. O jardim imperial não nasceu de um espirro elegante da natureza. Deu trabalho. Bastante.

O contrato manda Binot empregar pelo menos seis trabalhadores. E registra que a Superintendência forneceria carrinhos, carroças, animais e “um preto” para o transporte. A pessoa não recebe nome. A passagem também não esclarece sua condição jurídica, e nós não devemos completar a lacuna com certeza fabricada. Mas a linguagem do registro diz alguma coisa por si: no mesmo inventário prático de meios para fazer o jardim, um ser humano aparece reduzido a duas palavras.[7]

Quem era ele? Trabalhava sempre na Fazenda ou foi deslocado apenas para aquela obra? Era livre, liberto ou escravizado? Neste momento, as perguntas são mais honestas do que uma biografia imaginada. Também servem para lembrar que as paisagens históricas não foram feitas apenas por quem assinou contratos e deixou sobrenome.

Essa pequena dobra muda o passeio. O Retiro deixa de ser somente uma fileira de chefes militares homenageados. A Rua Fernandes Vieira conduz a Binot; Binot conduz aos jardins; os jardins conduzem a trabalhadores nomeados e não nomeados. A memória da cidade não anda em linha reta. Ainda bem — uma linha reta teria dificuldade nas ladeiras de Petrópolis.

O manuscrito de referência de Zanatta diz que a Travessa Guararapes já se chamou Binot e Guarani. A informação continua sem ato e sem mapa conferidos. Além disso, uma página municipal ainda menciona uma Rua Binot no Retiro, possivelmente distinta ou remanescente. Portanto, não convém declarar que uma rua inteira simplesmente trocou Binot por Guararapes. Topônimos podem migrar entre trechos, sobreviver lado a lado ou ganhar contornos que uma lista não explica.[8]

Por enquanto, a conexão segura é outra, mais concreta e talvez mais interessante: no endereço de Fernandes Vieira há um orquidário que conserva a memória de Binot. Entre a guerra que chegou às placas e as plantas que criaram raízes no bairro, existe uma história local — e, dentro dela, alguém que o contrato não se deu ao trabalho de nomear.

Fontes e caminhos da pesquisa

Referência de partida: Álvaro Zanatta, Histórias e lendas das ruas de Petrópolis, manuscrito consultado. Sua obra orienta a descoberta de lugares e pistas; este artigo é uma narrativa autoral de Luciano Varricchio, construída pelo confronto com as fontes identificadas abaixo.

[1] Identificação local herdada do manuscrito de referência de Álvaro Zanatta e do caderno inicial. Páginas atuais da Prefeitura confirmam o uso de Henrique Dias, Felipe Camarão, Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros no Retiro. Cadastro, mapa, Travessa Guararapes, atos e motivo de denominação ainda não foram conferidos. O capítulo não propõe percurso físico nem afirma vizinhança imediata entre as cinco vias.

[2] Eduardo de Almeida Navarro, Transcrição e tradução integral anotada das cartas dos índios Camarões, escritas em 1645 em tupi antigo, 2022, “Carta 1” e análise interna. Edição consultada. Texto acessado em HTML, sem verificação paleográfica. Barros e Monserrat catalogam a carta de agosto com destinatários não nomeados; a atribuição do título é, portanto, explicitada no corpo.

[3] Cândida Barros e Ruth Monserrat, Cartas de oferta de “quartel” em tupi de lideranças Potiguaras (1645), 2021, seções 3 e 4.2. Estudo consultado. Os originais e a cópia da BN não foram examinados diretamente.

[4] Juliana Alves, Pesquisa revela troca de cartas em tupi entre indígenas do século 17, Jornal da USP, 28/10/2021, atualização 28/01/2022. Reportagem consultada. Informação mediada por entrevista; não reproduzimos suposta resposta integral de Poti.

[5] Prefeitura de Petrópolis/TurisPetro, Atrativos — Orquidário Binot, s.d. Página consultada. A página registra Rua Fernandes Vieira, 390, Retiro, e atribui a fundação do orquidário a Jean Baptiste Binot em 1870. É apresentação turística contemporânea, não documento oitocentista.

[6] Frederico Amaro Haack, Homenagem ao Major Júlio Frederico Koeler, discurso de 29/06/2021, IHP; e Museu Imperial, Guia de visitação, p. 2. IHP e Museu Imperial. Fontes secundárias institucionais consultadas.

[7] Maria de Fátima Moraes Argon, No coração da cidade há um palácio e seu jardim, Boletim do IHP, ano II, nº 3, 4 e 5, setembro de 2008, p. 9. Transcrição consultada. Identificação declarada do original: Arquivo Grão-Pará, Códice 16, 1854, nº 9. O manuscrito original não foi examinado; a condição jurídica do trabalhador referido na passagem não foi presumida.

[8] O manuscrito de referência de Álvaro Zanatta registra “Binot” e “Guarani” como nomes anteriores da Travessa Guararapes. Uma página municipal indexada menciona separadamente Rua Binot no Retiro. Sem mapa e ato, a relação entre as duas denominações permanece aberta e foi excluída das afirmações factuais do corpo.

Esta pesquisa continua. Tem documentos, fotografias ou uma correção sobre esta história? Escreva para lucianoms@live.com. As informações recebidas serão verificadas antes de entrar no texto.

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