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Rua do Encanto e Rua Santos Dumont — o nome chegou antes do avião

há 3 horas
5 min de leitura

Santos Dumont tem dois endereços na memória de Petrópolis. Numa rua está o nome. Na outra, a casa.

A diferença parece pequena, até alguém procurar a Encantada na Rua Santos Dumont. Não encontrará. A casa de verão do inventor fica no número 22 da atual Rua do Encanto. A Rua Santos Dumont atravessa outro trecho da cidade e já foi conhecida pelo nome de Costa Gama, proprietário de terras na região.[19]

Essa separação guarda uma surpresa. Petrópolis deu o nome de Santos Dumont a uma rua em 1901, dezessete anos antes de ele construir a casa e cinco antes do voo público do 14-Bis.

O manuscrito de Zanatta atribui a escolha a uma resolução da Câmara tomada em 18 de novembro de 1901. O ato original ainda não foi examinado. Uma publicação da própria Prefeitura, preparada pela Comissão do Centenário em 1938, confirma o ano e explica o entusiasmo: naquele momento, o brasileiro celebrizado em Paris enfrentava o problema da dirigibilidade dos balões. A homenagem não esperou o avião. Chegou com o dirigível.[20]

A placa, porém, não teve a mesma pressa.

Segundo a Comissão, ela só foi colocada cerca de vinte anos mais tarde. Nesse intervalo — e ainda em 1938 — muita gente continuava dizendo Costa Gama. A Câmara podia escolher o homenageado; o hábito dos moradores não recebeu a circular. Entre o cadastro e a conversa, a rua manteve dois tempos.

Quando Santos Dumont comprou o terreno da futura Encantada, em 1918, escolheu outra ladeira. Hoje ela se chama Rua do Encanto. Na época, a nomenclatura era menos simples.

A mesma publicação municipal conta que Encanto era o nome popular da subida do Morro do Encanto. O nome oficial havia passado a Riachuelo, mas não conseguira expulsar o anterior da boca da cidade. Em 1952, a inscrição de tombamento da casa ainda a identificou como Rua Riachuelo, número 22. Atualmente, os cadastros museais voltaram a registrar Rua do Encanto. Ainda não localizamos o ato que explica esse retorno.[21]

Há, portanto, uma pequena simetria petropolitana: a Rua Santos Dumont continuou sendo chamada Costa Gama; a Rua Riachuelo continuou sendo chamada Encanto. As placas tentaram corrigir a cidade. A cidade corrigiu as placas de volta — embora ainda nos faltem os atos para contar cada mudança completa.

No terreno íngreme, a casa precisou resolver problemas antes mesmo de receber móveis. A Encantada distribui seus espaços em níveis compactos: oficina abaixo, sala e biblioteca no pavimento principal, quarto e banheiro acima, além do acesso ao mirante. Não tem cozinha. As refeições, segundo a apresentação do museu, vinham do Palace Hotel.[22]

As escadas viraram a curiosidade mais repetida. Seus degraus recortados alternam o espaço destinado a cada pé. Na escada externa, começa-se com o direito; na interna, com o esquerdo. O cadastro do próprio museu no MuseusBr relaciona o formato à economia de espaço e rejeita a explicação supersticiosa. Faz sentido desconfiar da lenda: seria uma superstição muito disciplinada no térreo e bastante desobediente no andar de cima.[22]

O chuveiro aquecido a álcool, os móveis ajustados às paredes e os ambientes de mais de uma função reforçam a imagem de uma moradia pensada como mecanismo. Mas é melhor não transformar cada parafuso numa confissão psicológica. A casa mostra soluções. Não nos autoriza, sozinha, a diagnosticar o homem.

Até a autoria pede cuidado. A apresentação institucional diz que Santos Dumont planejou a casa com auxílio do engenheiro Eduardo Pederneiras. Uma pesquisa dedicada ao imóvel identifica Pederneiras no projeto de engenharia e Armando Telles no arquitetônico. Sem consultar o livro e o processo de obras de 1918, a prudência é admitir que a Encantada pode ser uma criação compartilhada, ainda que marcada pelas escolhas do morador.[23]

Depois da morte de Santos Dumont, a casa chegou ao Município por meio da família. Fontes atuais falam na doação pelos sobrinhos; uma pesquisa museológica aponta escritura assinada em 1936 por Jorge de Toledo Dodsworth, ligada ao desejo de destinar o imóvel a fins educativos e culturais. A Comissão de 1938 resumiu dizendo que Santos Dumont a doara por testamento. A intenção e a transferência não são exatamente a mesma coisa. O documento jurídico ainda precisa ser lido por inteiro.[24]

Talvez seja essa a história escondida nos dois endereços. A cidade homenageou o inventor antes que ele construísse sua casa. Depois, guardou a casa numa rua cujo nome popular resistiu ao oficial. Numa ladeira, o nome chegou antes do morador. Na outra, o morador ajudou o nome a ficar.

Fontes e caminhos da pesquisa

Referência de partida: Álvaro Zanatta, Histórias e lendas das ruas de Petrópolis, manuscrito consultado. Sua obra orienta a descoberta de lugares e pistas; este artigo é uma narrativa autoral de Luciano Varricchio, construída pelo confronto com as fontes identificadas abaixo.

[19] O manuscrito de referência de Álvaro Zanatta, verbete “Rua Santos Dumont”, atribui a denominação à resolução da sessão de 18/11/1901 e registra Costa Gama como nome popular anterior. O ato original não foi examinado. A Comissão do Centenário de Petrópolis, v. I, 1938, pp. 202–203, confirma a homenagem em 1901 e a persistência do nome Costa Gama. Reprodução OCR consultada. É publicação municipal retrospectiva, não ata de 1901.

[20] Comissão do Centenário de Petrópolis, Trabalhos da Comissão do Centenário, v. I, Prefeitura Municipal de Petrópolis, Diretoria de Educação e Cultura, 1938, p. 203. Consultadas capa institucional e pp. 202–204 na reprodução OCR. A fonte associa a homenagem aos êxitos de dirigibilidade em Paris; não foi usada para fixar data ou percurso técnico de um voo específico.

[21] Mesmo volume, p. 178: Encanto aparece como nome popular da ladeira substituído oficialmente por Riachuelo, mas ainda usado em 1938. A ficha de tombamento reproduzida pelo iPatrimônio identifica “Casa de Santos Dumont — R. Riachuelo, nº 22”, processo 460-T-1952, inscrição 293, de 14/07/1952; a ficha não é o processo original. Registro consultado. O cadastro federal Visite Museus registra hoje Rua do Encanto, nº 22. Cadastro consultado. O ato de restauração de Encanto não foi localizado.

[22] MuseusBr/Ibram, cadastro do Museu Casa de Santos Dumont, atualizado em 24/04/2026. Página consultada. A descrição foi cadastrada pela própria instituição e informa três andares, observatório, ausência de cozinha, escadas alternadas e chuveiro a álcool. A alegação de que o chuveiro seria o único do Brasil à época não foi confirmada independentemente e não foi incorporada ao corpo.

[23] A apresentação institucional atribui o planejamento a Santos Dumont com auxílio de Eduardo Pederneiras. Fernanda Sanglard, “Arquitetura encantada”, Tribuna de Minas, 10/04/2011, resume a pesquisa do livro de Francisco Luiz Noel e Patrícia Souza Lima, Uma casa muito encantada: a invenção arquitetônica de Santos-Dumont, e atribui engenharia a Pederneiras e projeto arquitetônico a Armando Telles. Reportagem consultada. O livro e o processo municipal não foram examinados.

[24] O cadastro MuseusBr informa doação pelos sobrinhos e criação do museu pelo Decreto nº 350, de 25/09/1956. O portal Museus do Rio data a doação de 06/11/1936. Uma pesquisa museológica disponível em reprodução digital identifica Jorge de Toledo Dodsworth e a condição de uso educativo ou memorial, mas escritura e testamento não foram lidos diretamente. A notícia do TJSP sobre o inventário confirma a Encantada entre os bens e Arnaldo Dumont Villares como inventariante, sem esclarecer, no resumo, toda a transferência. TJSP. Tratar “doação por testamento” da Comissão de 1938 como síntese, não como descrição jurídica precisa.

Esta pesquisa continua. Tem documentos, fotografias ou uma correção sobre esta história? Escreva para lucianoms@live.com. As informações recebidas serão verificadas antes de entrar no texto.

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